Instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos estabelece metas de qualidade da água a partir dos usos que se pretende garantir, das condições atuais dos rios e daquilo que é possível alcançar no território
Abastecimento, irrigação, recreação, pesca, aquicultura e atividades produtivas têm algo em comum: todos dependem da água. Mas cada uso exige determinadas condições de qualidade.
É justamente para organizar essa relação entre água, usos e futuro que existe o Enquadramento dos Corpos de Água. O instrumento estabelece metas de qualidade para os rios e demais corpos hídricos e cria uma referência para orientar decisões, investimentos e ações de gestão ao longo do tempo.
Mais do que retratar a situação atual de um rio, o Enquadramento ajuda a responder uma pergunta essencial para a gestão das águas: qual qualidade de água queremos garantir para os diferentes usos e o que é necessário fazer para chegar lá?
Do rio que temos ao rio que queremos
O Enquadramento é um dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei nº 9.433/1997. Seu objetivo é estabelecer uma meta de qualidade da água a ser alcançada ou mantida em determinado trecho de um corpo hídrico, considerando os usos preponderantes que se pretende garantir ao longo do tempo.
A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 357/2005 complementa essa estrutura ao estabelecer a classificação dos corpos de água e as diretrizes ambientais para o Enquadramento, além das condições e padrões de qualidade associados às diferentes classes.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) também trata o Enquadramento como um instrumento de planejamento. Isso significa que ele não olha apenas para a condição encontrada hoje. O processo considera onde estamos, onde queremos chegar e quais condições são necessárias para tornar esse objetivo possível.
Na prática, a construção de uma meta passa pelo conhecimento da situação atual da água, pela identificação dos usos existentes e daqueles que se pretende garantir e pela avaliação da qualidade necessária para atender a essas finalidades.
Essa lógica pode ser compreendida a partir de três perspectivas:
O rio que temos
É a condição atual da qualidade da água. Para conhecê-la, são utilizados dados de monitoramento, estudos e ferramentas de modelagem. Esse diagnóstico mostra o ponto de partida e ajuda a identificar as condições de cada trecho do corpo hídrico.
O rio que queremos
Representa a qualidade da água necessária para garantir os usos atuais e aqueles que se pretende assegurar no futuro. Essa definição considera as necessidades sociais, econômicas e ambientais relacionadas aos recursos hídricos.
O rio que podemos ter
É quando a realidade entra no planejamento. A qualidade desejada é analisada considerando as condições e limitações técnicas, econômicas, sociais e ambientais do território. A partir daí, é possível avaliar o que pode ser alcançado, em quanto tempo e quais esforços serão necessários.
Nessa avaliação, fatores econômicos e legais também podem ser determinantes. A necessidade de implantação ou modernização de estações de tratamento de esgoto, a disponibilidade de tecnologias para o tratamento dos efluentes e os custos envolvidos são alguns dos aspectos considerados. Exigências legais e ambientais aplicáveis a determinados trechos também integram essa análise.
“Quando analisamos as diferentes alternativas, o custo para chegar à classe requerida pode ser um fator limitante. A necessidade de instalar ou modernizar estações de tratamento de esgoto, a disponibilidade de tecnologia e as exigências legais têm peso importante na avaliação da viabilidade”, explica Flavio Bernardes, Analista Ambiental que acompanha a revisão do Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Paranaíba (Pirh Paranaíba).
É da combinação dessas três perspectivas que surgem metas mais realistas e capazes de orientar a gestão dos recursos hídricos.
Classes de qualidade relacionam a água aos seus usos
No Enquadramento, as metas de qualidade são expressas por meio de classes.
Para as águas doces, a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 357/2005 estabelece cinco classes: Especial, 1, 2, 3 e 4. Cada uma reúne condições e padrões de qualidade associados a determinados usos da água e a objetivos de proteção ambiental.
De forma geral, quanto mais exigente for o uso, maiores podem ser os requisitos de qualidade necessários.
O abastecimento humano, por exemplo, possui diferentes exigências conforme a classe da água e o tratamento necessário antes do consumo. Na recreação, os requisitos variam de acordo com a forma de contato com a água. Na irrigação, características como o tipo de cultura também influenciam a qualidade necessária.
A classificação também considera usos como pesca, aquicultura, dessedentação de animais e navegação, além de objetivos relacionados à proteção dos ambientes e das comunidades aquáticas.
Materiais técnicos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico ajudam a visualizar essa relação: diferentes usos demandam diferentes condições da água, e os padrões estabelecidos para cada classe devem ser compatíveis com as finalidades previstas.
É importante destacar que a classe definida como meta não representa necessariamente a condição atual do rio. A qualidade observada hoje mostra de onde se parte. A classe estabelecida pelo Enquadramento indica a condição de qualidade que deverá ser alcançada ou mantida em determinado trecho.
Esse alcance pode ser planejado de forma progressiva, com metas de curto, médio e longo prazo. Assim, um trecho que hoje apresenta uma condição diferente daquela definida como objetivo não precisa, necessariamente, atingir a classe final de forma imediata. O processo estabelece um caminho para que a qualidade pretendida seja alcançada dentro do horizonte definido.
Metas que ajudam a transformar planejamento em ação
Uma vez definida uma meta, é possível comparar a condição atual da água com a qualidade necessária para os usos que se pretende garantir.
Essa comparação ajuda a identificar onde a qualidade precisa ser mantida e onde são necessários esforços para alcançar uma condição melhor.
As ações podem envolver diferentes frentes, como:
- saneamento;
- redução e controle de cargas poluidoras;
- monitoramento da qualidade da água;
- recuperação e conservação ambiental;
- planejamento do uso dos recursos hídricos;
- investimentos em infraestrutura e medidas de gestão.
A viabilidade é parte fundamental desse processo. Estudos e análises permitem avaliar os esforços necessários para alcançar a qualidade desejada, considerando as condições técnicas, econômicas, sociais e ambientais existentes no território.
A definição de prazos também permite organizar prioridades. Em áreas onde determinados usos dependem de uma qualidade superior à condição atual da água, o planejamento das ações e dos investimentos necessários ganha ainda mais relevância.
O Enquadramento também se relaciona com outros instrumentos da gestão dos recursos hídricos e ambiental. As metas estabelecidas podem servir de referência para decisões sobre o uso da água, planejamento de intervenções, monitoramento e definição de medidas necessárias para sua efetivação.
Assim, o Enquadramento ajuda a conectar diagnóstico, metas, ações e acompanhamento. Com uma referência estabelecida, torna-se possível definir prioridades e verificar, ao longo dos anos, se as medidas adotadas estão contribuindo para a melhoria ou manutenção da qualidade da água.
Participação: diferentes olhares para uma mesma água
Definir a qualidade que se pretende garantir para um rio não é uma decisão isolada. A água atende diferentes setores, comunidades e necessidades, muitas vezes presentes simultaneamente em um mesmo território.
Por isso, o Enquadramento também possui uma importante dimensão participativa.
Os Comitês de Bacia Hidrográfica são espaços colegiados que reúnem representantes do poder público, dos usuários de recursos hídricos e da sociedade civil. Essa composição permite colocar em diálogo os resultados dos estudos técnicos e as diferentes demandas, experiências e perspectivas existentes na bacia.
Na Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba atua como espaço de articulação entre diferentes setores envolvidos na gestão das águas.
Os estudos técnicos contribuem para compreender a situação dos corpos hídricos, os usos existentes, as necessidades de qualidade e as possibilidades de alcance das metas. A participação social amplia essa discussão, incorporando prioridades e diferentes visões sobre o futuro da água no território.
Essa construção é especialmente importante porque as metas de Enquadramento podem orientar decisões, investimentos e ações que se estendem por muitos anos.
Um compromisso com o futuro dos rios
O Enquadramento conecta o rio que temos ao rio que queremos e ao rio que podemos ter.
Ao estabelecer metas de qualidade relacionadas aos usos que se pretende garantir, o instrumento cria uma referência para orientar o planejamento e as ações necessárias para alcançar ou manter determinada condição da água.
Em uma bacia hidrográfica com diferentes atividades econômicas, demandas sociais e necessidades ambientais, essa referência ajuda a organizar prioridades, orientar esforços e acompanhar os resultados das medidas adotadas.
Mais do que classificar a água, o Enquadramento estabelece um objetivo de gestão. É uma forma de transformar a pergunta “como está o nosso rio?” em uma reflexão mais ampla: “que rio queremos para o futuro e o que precisamos fazer para chegar lá?”